R. José Guerreiro, 40 Distrito Industrial II Iracemápolis/SP

Fachadas entram na era da economia circular: o que muda?

Quando um edifício é construído, a fachada costuma ser pensada para cumprir uma série de funções: proteger os ambientes internos, controlar a entrada de luz e calor, contribuir para o conforto dos ocupantes e, claro, definir a identidade visual da construção.

Mas existe uma pergunta que nem sempre aparece no projeto: o que acontece com essa fachada quando ela precisar ser modificada, substituída ou retirada?

A questão começa a ganhar espaço entre pesquisadores que estudam a aplicação da economia circular na construção civil. Em vez de pensar apenas na fabricação e no uso dos componentes, essa abordagem considera também o que poderá acontecer com materiais e sistemas ao longo de todo o seu ciclo de vida.

Uma revisão publicada em dezembro de 2025 no Journal of Cleaner Production analisou justamente essa questão e reuniu estratégias para incorporar princípios de circularidade ao projeto de fachadas. Entre outras coisas, o estudo aponta que esses sistemas podem ter uma vida útil menor do que a própria estrutura dos edifícios e, justamente por isso, estar sujeitos a intervenções e substituições ao longo do tempo.

A mudança proposta é simples de entender, mas pode transformar a maneira como uma fachada é projetada: em vez de pensar somente em como ela será construída, é preciso considerar também como poderá ser desmontada, modificada e reaproveitada no futuro.

A fachada também tem um “fim de vida”

Grande parte das discussões sobre sustentabilidade na construção está relacionada ao consumo de energia durante a operação dos edifícios. Uma fachada eficiente, por exemplo, pode contribuir para reduzir a entrada excessiva de calor ou melhorar o aproveitamento da iluminação natural.

Mas esse é apenas um dos momentos da história de um componente.

Antes de chegar ao edifício, foi necessário extrair matérias-primas, fabricar produtos e transportá-los. Depois da instalação, esses materiais permanecem em uso por anos. Mais adiante, porém, podem precisar ser substituídos, reformados ou retirados.

É nesse ponto que aparece a diferença entre uma lógica linear e uma lógica circular.

No modelo tradicional, os materiais seguem aproximadamente o caminho extrair-produzir-utilizar-descartar. Na economia circular, por sua vez, a intenção é manter produtos e materiais em uso pelo maior tempo possível, priorizando estratégias como manutenção, reutilização, recuperação e reciclagem.

Para as fachadas, isso significa olhar para além do momento da instalação.

Uma solução pode ser durável, por exemplo, mas ainda apresentar dificuldades para ser desmontada. Outra pode utilizar material reciclável, mas estar tão integrada a outros componentes que sua separação seja difícil.

Por isso, a circularidade não depende apenas do material escolhido. Ela também depende de como a fachada é projetada.

Pesquisadores querem levar a circularidade para o projeto das fachadas

Foi justamente essa mudança de perspectiva que motivou o estudo publicado por Hamad Alabdulrazzaq, Eugenia Gasparri, Arianna Brambilla e Shady Attia.

Publicado em dezembro de 2025, o trabalho fez uma revisão sistemática das estratégias de projeto relacionadas à circularidade de fachadas e dos indicadores utilizados para avaliar esse desempenho. Os autores destacam que a redução do carbono operacional dos edifícios vem aumentando a importância relativa do chamado carbono incorporado, associado à fabricação e aos materiais utilizados na construção.

A pesquisa também chama atenção para outro fator: as fachadas podem passar por mais intervenções e substituições ao longo da vida de um edifício do que sua estrutura principal.

Isso cria uma oportunidade para repensar o projeto desde o início.

Em vez de perguntar somente:

“Qual material apresenta o desempenho desejado?”

o projeto pode começar a considerar também:

“O que será possível fazer com esse componente quando ele não for mais necessário?”

Essa pergunta muda bastante a lógica de especificação.

Não basta escolher um material reciclável

É tentador resumir a economia circular à escolha de materiais recicláveis. Mas a pesquisa aponta para uma questão mais ampla.

Imagine, por exemplo, dois sistemas de fachada fabricados predominantemente com materiais que podem ser reciclados. Se um deles puder ser desmontado com facilidade e seus componentes forem separados para manutenção, reutilização ou reciclagem, enquanto o outro exigir a destruição de diversas camadas para ser retirado, o potencial de circularidade dos dois sistemas não será necessariamente o mesmo.

Por isso, entram em discussão conceitos como durabilidade, reutilização, desmontagem e recuperação de materiais.

O chamado Design for Disassembly, ou projeto para desmontagem, segue exatamente essa lógica: pensar nas conexões e nos componentes levando em consideração que, em algum momento, eles poderão precisar ser retirados.

Isso pode influenciar desde a escolha dos elementos até a maneira como eles são conectados.

A consequência é interessante: o futuro da fachada começa a ser considerado no momento em que ela ainda está sendo desenhada.

O desenho da fachada pode determinar o que acontece décadas depois

Pensar na desmontagem não significa necessariamente imaginar uma fachada provisória ou de curta duração; pelo contrário.

Uma das possibilidades da economia circular é justamente combinar longa vida útil com capacidade de adaptação.

Se determinado componente puder ser mantido, reparado ou substituído sem exigir a retirada de todo o sistema, a fachada pode acompanhar as mudanças do edifício ao longo do tempo.

Isso é especialmente relevante em projetos que passam por reformas, mudanças de uso ou atualizações de desempenho.

A lógica também ajuda a explicar por que a circularidade precisa ser avaliada em diferentes escalas. Não basta observar o edifício inteiro: é necessário entender o comportamento de seus sistemas, componentes e materiais.

Essa é uma das questões abordadas por outro estudo publicado no final de 2025, que propôs uma metodologia chamada Carbon Flow Analysis (CFA). A ferramenta combina análise de fluxo de materiais e avaliação de ciclo de vida para mapear materiais, carbono incorporado e conteúdo de materiais secundários em componentes de fachadas.

A proposta é ajudar arquitetos e outros profissionais a comparar alternativas de maneira mais objetiva durante decisões de projeto.

E há uma conclusão importante: usar material reciclado não garante, sozinho, um menor impacto ambiental em qualquer situação. O resultado depende do material, do componente e do contexto analisado.

Ou seja, não existe uma resposta única para uma fachada circular. É preciso analisar o sistema como um todo.

Fachadas entram na era da economia circular: o que muda?

Onde as chapas metálicas entram nessa nova lógica?

É justamente nesse cenário que soluções metálicas para fachadas ganham uma discussão que vai além da estética.

Chapas perfuradas e expandidas podem assumir diferentes funções em projetos arquitetônicos, aparecendo em fachadas, brises, revestimentos, painéis e outras aplicações.

Sua geometria também permite trabalhar diferentes níveis de abertura, transparência e composição visual, o que amplia as possibilidades de adaptação aos projetos.

Quando a discussão passa a incluir circularidade, porém, o olhar precisa ser ainda mais amplo.

A questão deixa de ser apenas qual aparência a fachada terá e passa a incluir perguntas como:

  • Como os componentes serão instalados?
  • Eles poderão ser substituídos individualmente?
  • Como será feita uma futura manutenção?
  • É possível desmontar o sistema sem inutilizar seus elementos?
  • O que poderá acontecer com os materiais ao final de sua utilização?

São perguntas que aproximam a escolha dos materiais de uma visão de longo prazo.

Para arquitetos e especificadores, isso representa uma mudança importante: a fachada deixa de ser apenas a “pele” do edifício e passa a ser considerada também como um conjunto de componentes que terá uma trajetória própria ao longo dos anos.

A próxima geração de fachadas pode ser pensada para o depois

A verdade é que a economia circular está trazendo uma nova pergunta para o projeto arquitetônico.

Durante muito tempo, era suficiente pensar em como construir uma fachada que apresentasse o desempenho esperado e permanecesse em funcionamento pelo maior tempo possível. Agora, pesquisadores começam a defender que também é preciso considerar o que acontecerá quando esse sistema precisar mudar.

A pesquisa publicada no Journal of Cleaner Production mostra que essa discussão já envolve estratégias específicas de projeto e indicadores capazes de avaliar a circularidade das fachadas.

Outro estudo recente reforça a mesma tendência ao propor uma metodologia capaz de acompanhar fluxos de materiais e carbono nos componentes utilizados em reformas de fachadas.

A ideia, portanto, não é simplesmente construir com “materiais sustentáveis”.

É pensar em fachadas mais duráveis, adaptáveis e preparadas para diferentes etapas de sua vida útil.

E essa mudança pode fazer com que uma boa fachada não seja apenas aquela que funciona bem hoje, mas também aquela que continua fazendo sentido quando o edifício precisar mudar amanhã.

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