R. José Guerreiro, 40 Distrito Industrial II Iracemápolis/SP

Como o desenho dos furos pode mudar o desempenho de uma fachada

Uma chapa metálica perfurada pode parecer, à primeira vista, uma solução bastante simples: uma superfície com aberturas que permitem a passagem de luz e ar. Mas será que duas chapas com exatamente a mesma quantidade de área aberta apresentam necessariamente o mesmo desempenho quando utilizadas em uma fachada?

Uma pesquisa publicada em novembro de 2024 no Journal of Building Engineering, da Elsevier, aponta que não.

Pesquisadores analisaram diferentes padrões de perfuração e descobriram que a maneira como os furos são distribuídos pela superfície pode influenciar significativamente a iluminação natural e o conforto visual dentro dos ambientes.

E mais do que isso: em determinadas condições, padrões de perfuração não uniformes apresentaram desempenho superior ao de uma configuração uniforme, mesmo quando os dois sistemas possuíam a mesma proporção de área aberta.

A descoberta ajuda a colocar uma nova perspectiva sobre um elemento bastante conhecido da arquitetura contemporânea: a fachada metálica perfurada.

A questão deixa de ser simplesmente “quanto da chapa deve ser aberto?” e passa a incluir uma pergunta talvez ainda mais interessante: “Onde essas aberturas devem estar?”

E a resposta pode fazer diferença tanto para o desempenho do edifício quanto para a maneira como sua fachada é desenhada.

Quando a fachada precisa fazer mais do que proteger o edifício

Grandes superfícies envidraçadas transformaram a arquitetura contemporânea Elas permitem aproveitar a iluminação natural, ampliar a relação visual entre os ambientes internos e externos e criar fachadas visualmente leves. Ao mesmo tempo, porém, o excesso de vidro pode trazer alguns desafios.

A entrada exagerada de radiação solar pode aumentar o ganho de calor e, consequentemente, a necessidade de resfriamento dos ambientes. Já o excesso de luz pode provocar ofuscamento, desconforto visual e até dificultar a realização de determinadas tarefas.

É nesse ponto que entram as estratégias de sombreamento.

Brises, persianas, elementos horizontais e verticais e, entre outras soluções, telas solares perfuradas podem funcionar como uma camada intermediária entre o ambiente externo e o vidro.

Em vez de simplesmente impedir a entrada da luz, essas telas podem reduzir a incidência direta da radiação solar e transformar parte dela em luz difusa, contribuindo para uma distribuição mais confortável da iluminação.

Quando instaladas diante de uma fachada envidraçada, também criam uma espécie de camada de proteção entre o painel metálico e o vidro, ajudando a reduzir a exposição direta da superfície transparente ao sol.

Mas existe uma questão que durante muito tempo recebeu menos atenção: será que a distribuição das perfurações interfere nesse desempenho?

O que são as fachadas solares perfuradas?

As chamadas perforated solar screens são, basicamente, painéis relativamente finos e opacos que recebem uma série de aberturas e são instalados diante de superfícies envidraçadas.

Na prática, elas podem desempenhar simultaneamente funções que vão muito além da estética.

Uma tela perfurada pode:

  • reduzir a incidência direta de radiação solar;
  • criar áreas de sombra;
  • favorecer a entrada de luz difusa;
  • contribuir para o controle da iluminação;
  • reduzir o desconforto provocado pelo excesso de brilho;
  • criar privacidade;
  • produzir diferentes efeitos de luz e sombra;
  • acrescentar profundidade e identidade visual à fachada.

Essa combinação ajuda a explicar por que as telas perfuradas vêm ganhando espaço na arquitetura.

O próprio estudo cita projetos em diferentes países nos quais padrões não uniformes de abertura foram utilizados para combinar objetivos como sombreamento, iluminação, ventilação, privacidade e expressão estética.

Ou seja: uma fachada perfurada pode ser, ao mesmo tempo, uma solução funcional e uma ferramenta de desenho arquitetônico.

E é justamente aí que a pesquisa começa a ficar interessante.

O problema: e se os furos não estiverem distribuídos da mesma maneira?

Imagine duas chapas:

  • As duas possuem a mesma dimensão;
  • As duas utilizam o mesmo material;
  • As duas têm exatamente a mesma porcentagem de área aberta;
  • A primeira distribui seus furos de maneira uniforme por toda a superfície;
  • A segunda concentra mais aberturas em determinadas regiões e menos em outras, criando um desenho gradual ou assimétrico.

Se a quantidade total de área aberta é a mesma, seria razoável imaginar que as duas se comportariam de maneira semelhante. Mas a pesquisa de Lingjiang Huang, Kai Zou, Xiaohu Zhang e Shuangping Zhao investigou justamente essa hipótese.

Publicado no Journal of Building Engineering, o estudo comparou oito diferentes padrões de perfuração não uniforme com uma configuração uniforme, procurando entender como a distribuição das aberturas poderia afetar a iluminação natural e o conforto visual.

E os resultados indicaram que o desenho da perfuração é, de fato, uma variável importante.

Isso muda bastante a maneira de pensar uma chapa perfurada.

Porque significa que não basta especificar: “Quero uma fachada com 40% de área aberta.”

É possível que duas soluções com os mesmos 40% apresentem comportamentos diferentes dependendo de como esses 40% estão distribuídos.

Como os pesquisadores descobriram se um desenho funciona melhor que outro?

É importante fazer uma ressalva antes de avançarmos. A pesquisa não consistiu em construir oito edifícios diferentes e medir seus resultados durante anos.

Os pesquisadores utilizaram simulações computacionais, organizadas em diferentes etapas de análise.

Primeiro, estabeleceram o modelo e as condições de simulação.

Depois, definiram a maneira de representar a não uniformidade das perfurações e geraram os diferentes padrões.

Por fim, utilizaram uma combinação de experimentos ortogonais e Data Envelopment Analysis (DEA) para identificar quais fatores geométricos tinham maior influência e comparar o desempenho das configurações.

Essa metodologia é importante porque permitiu aos pesquisadores não apenas perguntar qual padrão funcionava melhor, mas também tentar descobrir qual característica do padrão estava por trás da diferença.

E eles chegaram a uma conclusão bastante clara: o padrão de perfuração foi identificado como o fator geométrico mais importante para o desempenho geral relacionado à iluminação natural e ao desconforto visual.

O que exatamente os pesquisadores mediram?

Para avaliar o comportamento das diferentes configurações, o estudo utilizou cinco indicadores.

IndicadorO que ele ajuda a entender
UDISe a iluminação natural disponível está dentro de uma faixa considerada útil
sDAQuanto do ambiente recebe iluminação natural adequada durante o período analisado
ASEQuanto do ambiente fica sujeito a níveis excessivos de exposição solar
TUFA uniformidade temporal da iluminação
sDGA probabilidade de ocorrência de desconforto visual por ofuscamento

Esses indicadores permitiram observar a fachada por diferentes ângulos.

Não bastava, portanto, descobrir qual padrão deixava o ambiente mais iluminado.

Era necessário avaliar também se a luz estava distribuída de maneira adequada e se o excesso de luminosidade poderia gerar desconforto.

Essa distinção é fundamental.

Afinal, uma sala extremamente iluminada não é necessariamente uma sala confortável.

O resultado surpreendente: a mesma quantidade de furos pode produzir resultados diferentes

Foi aqui que a pesquisa encontrou seu principal resultado.

Os pesquisadores concluíram que determinados padrões não uniformes apresentaram desempenho superior ao padrão uniforme mesmo quando a proporção de perfuração era mantida igual.

Em outras palavras: não é apenas a quantidade de abertura que importa; a distribuição dessa abertura também importa.

A descoberta é particularmente interessante porque transforma uma característica aparentemente estética – o desenho formado pelos furos – em uma variável relacionada ao desempenho ambiental da fachada.

Uma superfície com perfurações regulares pode produzir um resultado.

Uma superfície com a mesma área aberta, mas com uma distribuição diferente, pode produzir outro.

É uma diferença que provavelmente passaria despercebida para quem observa apenas a porcentagem de abertura.

Dois padrões se destacaram na pesquisa

Entre as configurações analisadas, dois padrões não uniformes apresentaram resultados especialmente interessantes.

O primeiro foi chamado pelos pesquisadores de periphery-center, uma configuração que trabalha com uma distribuição diferenciada entre a periferia e a região central do painel.

O segundo foi o padrão bottom-top, que estabelece uma variação das perfurações entre as partes inferior e superior.

Os dois apresentaram desempenho particularmente positivo quando considerados os diferentes indicadores de iluminação natural e conforto visual.

A conclusão não significa que esses dois desenhos sejam necessariamente os melhores para qualquer fachada.

Mas mostra algo mais importante: a distribuição espacial das aberturas pode ser utilizada como uma variável de projeto.

Isso abre espaço para pensar em fachadas nas quais o desenho dos furos não é escolhido apenas pela aparência.

O desenho da perfuração foi mais importante do que parecia

Os resultados estatísticos reforçam essa conclusão.

Na análise realizada pelos pesquisadores, os indicadores ASE, UDI, TUF e sDG apresentaram diferenças altamente significativas, com p < 0,01, enquanto o sDA apresentou diferença estatisticamente significativa, com p < 0,05.

Traduzindo a linguagem estatística: os pesquisadores encontraram evidências de que as diferenças observadas entre as configurações não eram simplesmente fruto de pequenas variações aleatórias dentro da simulação.

A geometria realmente estava influenciando o resultado.

E esse é talvez o ponto mais relevante para quem trabalha com arquitetura:

o desenho da fachada pode participar da estratégia de desempenho do edifício.

Não estamos falando apenas de criar um padrão bonito.

Estamos falando de escolher uma configuração que também responda à maneira como a luz entra no ambiente.

Então basta copiar o padrão que funcionou melhor?

Não – e essa é uma ressalva importante.

O estudo não descobriu uma espécie de “formato mágico” de chapa perfurada que deveria ser aplicado em todas as fachadas.

Os próprios pesquisadores destacam que o desempenho das telas solares também está relacionado a outros fatores geométricos, como a proporção de perfuração, a profundidade da tela e a relação de aspecto das aberturas.

Além disso, o estudo foi realizado por meio de simulações em condições específicas.

Isso significa que uma configuração que apresenta bons resultados naquele cenário não necessariamente terá o mesmo comportamento em:

  • outro clima;
  • outra orientação solar;
  • outro tipo de vidro;
  • outra profundidade de fachada;
  • outra dimensão de ambiente;
  • outra taxa de abertura.

Bepex: do furo padrão à fachada personalizada

chapa perfurada acustica

Essa mudança de perspectiva também ajuda a explicar por que as chapas metálicas podem oferecer tantas possibilidades para projetos contemporâneos – inclusive para aqueles já realizados pela nossa equipe.

Se a distribuição das aberturas pode influenciar o comportamento de uma tela solar, existe espaço para pensar em soluções que vão além de um único padrão repetido de maneira uniforme.

É possível, por exemplo, trabalhar conceitualmente com:

  • áreas de maior abertura;
  • áreas de menor abertura;
  • transições graduais;
  • padrões geométricos;
  • módulos repetitivos;
  • composições personalizadas;
  • diferentes níveis de transparência;
  • combinações entre estética e controle solar.

Isso não significa que todo projeto precise de uma fachada complexa. Às vezes, uma solução uniforme será exatamente a mais adequada – e o arquiteto passa a ter mais liberdade para utilizar a geometria das perfurações como ferramenta de projeto.

Essa liberdade pode ser particularmente interessante em fachadas de segunda pele, brises e revestimentos metálicos. Para o planejamento de tudo isso, você pode contar com a gente.

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